Conexão DP 2026 Fortaleza: o DP mudou — e o profissional também precisa mudar
Quem trabalha com Departamento Pessoal sabe: dificilmente passamos muito tempo sem alguma novidade.
Muda legislação.
Muda sistema.
Muda entendimento.
Muda processo.
E quando pensamos que finalmente dominamos uma rotina, aparece outra atualização.
Nos dias 22 e 23 de agosto, estive em Fortaleza participando do Conexão DP 2026. Foram dois dias cercada de profissionais que vivem exatamente essa realidade.
E voltei de lá pensando que talvez a principal mudança do Departamento Pessoal não esteja acontecendo nos sistemas.
Está acontecendo no papel do profissional.
As palestras passaram por Crédito do Trabalhador, FGTS Digital, eSocial, processos trabalhistas, Previdência, DCTFWeb, erros de folha, inteligência artificial, comunicação, saúde mental, carreira e posicionamento.
Assuntos diferentes, mas que apontaram para uma mesma direção: não basta mais saber executar. Precisamos entender, analisar, prevenir e orientar.
Do DP operacional ao DP consultivo
Uma das provocações trazidas por Euza Bispo foi justamente essa:
Você se considera um DP operacional, técnico ou consultivo?
A diferença parece pequena, mas não é.
O operacional executa a rotina.
O técnico executa corretamente, conhece a legislação e valida o cálculo.
O consultivo vai além: analisa o cenário, identifica riscos e ajuda a empresa a decidir.
E existe uma frase da apresentação que considero muito representativa da transformação que estamos vivendo:
“O sistema não deixa” já não pode ser a resposta do DP.
A empresa quer saber:
Qual é o risco?
O que a legislação determina?
Qual procedimento devemos adotar?
Existe outra alternativa?
Sistema é ferramenta.
Responsabilidade técnica continua sendo nossa.
Crédito do Trabalhador e FGTS Digital: a atualização não para
João Paulo Machado trouxe temas que estão literalmente na mesa do DP em 2026: Crédito do Trabalhador, estorno e restituição no FGTS Digital, novo registro no PAT, Abono Salarial e conferência das informações que substituíram a DIRF.
No Crédito do Trabalhador, por exemplo, foram abordadas alterações relacionadas às garantias envolvendo FGTS e multa rescisória, à composição da remuneração disponível e ao desconto no mês do desligamento.
E aqui existe uma lição que vai muito além do consignado.
Hoje uma mudança legislativa ou operacional dificilmente fica restrita a uma única rotina.
Ela pode começar na folha, passar pelo eSocial, chegar ao FGTS Digital e ainda depender de informações disponíveis em outro ambiente governamental.
Por isso, o DP precisa começar a enxergar processos completos, e não apenas tarefas isoladas.
Pequenos erros continuam custando caro
A palestra de Fran Menezes trouxe algo que considero indispensável: os erros aparentemente pequenos que podem gerar grandes consequências.
Foram discutidos pontos envolvendo IRRF e pensão alimentícia, CNAE preponderante, abono pecuniário, vale-transporte e até situações envolvendo contratação de MEI.
Um exemplo interessante é o CNAE preponderante.
Não basta pegar o CNAE principal do cartão do CNPJ e simplesmente parametrizar o sistema. É necessário verificar o enquadramento aplicável para fins do RAT conforme a atividade preponderante e a realidade dos segurados empregados e trabalhadores avulsos, porque uma parametrização incorreta pode refletir diretamente no recolhimento previdenciário.
E esse exemplo resume algo que repito bastante: parametrização não substitui conhecimento.
O sistema calcula aquilo que ensinamos a ele calcular.
Se a informação de origem estiver errada, podemos ter um cálculo perfeitamente processado — e tecnicamente incorreto.
Como a própria apresentação provocou: errar pode fazer parte da jornada; repetir erros que já deveriam ter virado aprendizado não pode fazer parte da rotina.
e-CAC e DCTFWeb também precisam fazer parte do repertório
Com Edilene Gaivota, o evento entrou na prática do e-CAC e das rotinas relacionadas a pagamentos, DCTFWeb, MIT, SISTAD, Sicalc e processos digitais.
É outro ponto que considero importante.
Durante muito tempo, alguns profissionais enxergaram determinadas etapas tributárias como algo que terminava na contabilidade.
Hoje as fronteiras são muito menores.
Quando uma informação nasce na folha e segue para eSocial, DCTFWeb e Receita Federal, o DP precisa compreender o reflexo daquilo que está enviando, mesmo que determinadas etapas posteriores sejam executadas por outro setor.
Não significa transformar o profissional de DP em contador, advogado ou fiscal.
Significa entender onde o seu processo começa, por onde a informação passa e quais consequências ela pode produzir.
Previdenciário: decorar regra já não resolve
Claudeci Silva trouxe as atualizações previdenciárias de 2026 e uma mensagem que merece atenção:
atualização previdenciária não é simplesmente decorar novas normas.
Existe uma cadeia entre norma, procedimento, sistema, segurado e empresa.
Foram discutidos temas como Atestmed, salário-maternidade, aposentadorias e saúde mental, mostrando justamente o impacto operacional que uma alteração previdenciária pode provocar na empresa.
Isso conversa diretamente com a realidade do DP.
Quando uma regra muda no INSS, alguém precisa entender o reflexo no afastamento, no eSocial, na folha, no retorno do trabalhador e na orientação para a empresa.
E muitas vezes esse alguém será o DP.
Reclamatória trabalhista deixou de ser assunto apenas do jurídico
Outro assunto que ganhou espaço foi o processo trabalhista.
Cybele Ferreira e Rafael Praxedes fizeram uma ponte importante entre a reclamação trabalhista, a decisão judicial e tudo aquilo que acontece depois.
E existe um motivo para o DP prestar muita atenção nisso.
Hoje uma reclamatória pode gerar reflexos no eSocial, recolhimentos previdenciários, FGTS, imposto de renda e obrigações acessórias.
Portanto, a sentença pode terminar para o advogado, mas a obrigação operacional da empresa muitas vezes está apenas começando.
Isso exige aproximação entre jurídico, contabilidade e Departamento Pessoal.
E o TST? Também precisa entrar na rotina do DP
Luiz Freitas e Ricardo Auzier trouxeram os precedentes vinculantes do TST e uma frase bastante forte:
“O TST não cria passivo trabalhista. Quem cria é a rotina mal executada.”
A provocação faz sentido.
Não basta acompanhar apenas mudanças na CLT.
O profissional precisa entender que determinados entendimentos consolidados pelo Tribunal Superior do Trabalho podem impactar diretamente procedimentos praticados pela empresa.
Jornada.
Rescisão.
FGTS.
Benefícios.
Verbas trabalhistas.
São assuntos que podem chegar diretamente à mesa do DP.
Isso não significa que o profissional precise substituir o jurídico.
Significa que DP e jurídico precisam conversar antes do processo, e não apenas depois dele.
Inteligência artificial entrou no DP. Mas com qual propósito?
E claro que inteligência artificial também apareceu.
Juliana Coelho falou sobre agentes de IA e trouxe uma frase que gostei muito:
“Quando a rotina depende da memória, a gestão perde controle.”
É exatamente aqui que vejo uma das grandes oportunidades para o DP.
Não usar IA apenas para escrever um e-mail mais rápido.
Mas começar a pensar em tecnologia para organizar processos, criar controles, identificar exceções, documentar rotinas e reduzir tarefas repetitivas.
Ao mesmo tempo, existe um cuidado importante: automatizar sem conhecer a regra também automatiza o erro.
Por isso continuo defendendo a mesma lógica: primeiro conhecimento, depois tecnologia.
Mas quem cuida de quem cuida de tudo isso?
Talvez uma das discussões mais necessárias do evento tenha sido justamente sobre o próprio profissional.
Bruno Lima falou do chamado DP Cuidador, relacionando rotina, saúde mental, burnout, ansiedade, ergonomia, comunicação e bem-estar.
E isso merece atenção.
Falamos muito sobre os riscos psicossociais dos trabalhadores.
Falamos sobre afastamentos.
Falamos sobre saúde mental.
Mas quantas vezes olhamos para quem está dentro do DP?
Fechamento.
Prazo.
Mudança legislativa.
Atendimento.
Folha.
eSocial.
FGTS Digital.
Consignado.
Fiscalização.
Gestor pedindo resposta.
Empregado esperando solução.
Tudo urgente.
Tudo importante.
Não podemos transformar sobrecarga em característica da profissão.
Inclusive, outra frase apresentada no evento resume bem isso: “Romantizar a exaustão não é gestão. É falta de método.”
Comunicação também virou competência técnica
E existe mais uma habilidade que às vezes deixamos em segundo plano: saber comunicar aquilo que sabemos.
Na apresentação sobre comunicação foram trabalhadas situações envolvendo assertividade, objeções e capacidade de sustentar uma decisão.
Um dos exemplos era muito simples: quando você já está sobrecarregado e alguém pede que assuma outra demanda, dizer “eu dou um jeito” não é necessariamente colaboração.
Pode ser apenas falta de limite.
Comunicação assertiva também significa conseguir explicar prioridades, riscos e consequências sem agressividade e sem fugir da conversa.
Para um DP que quer ser consultivo, isso é fundamental.
Não adianta identificar o risco se você não consegue explicá-lo para a liderança.
Talvez muitos de nós realmente tenhamos caído de paraquedas no DP
E teve também uma reflexão muito bonita trazida por Ciro Mariano, Ricardo Auzier e Neide Cavalcante:
quantas pessoas, quando crianças, sonhavam em trabalhar no Departamento Pessoal?
Provavelmente poucas.
A apresentação brincou justamente com isso: “A maioria aqui caiu de paraquedas.”
Eu gostei dessa provocação porque muita gente realmente chegou ao DP por acaso.
Começou ajudando alguém.
Foi cobrir férias.
Recebeu uma oportunidade.
Entrou para fazer uma tarefa e ficou.
Mas existe um momento em que o paraquedas abre.
É quando percebemos que não trabalhamos apenas com folha, eventos e obrigações.
Trabalhamos com momentos importantes da vida das pessoas.
A primeira carteira assinada.
As férias.
A chegada de um filho.
Um afastamento.
Uma aposentadoria.
E também um desligamento.
Talvez seja justamente isso que faça tanta gente que chegou por acaso escolher permanecer.
O que Marta pensa sobre isso?Digitação tende a diminuir.
Conferências manuais tendem a diminuir.
Processos repetitivos serão cada vez mais automatizados.
A inteligência artificial fará parte da nossa rotina.
Mas alguém continuará precisando entender a legislação.
Alguém precisará perceber que aquele cálculo está estranho.
Alguém precisará interpretar uma nova orientação.
Alguém precisará conversar com o jurídico.
Alguém precisará explicar o risco para o gestor.
E alguém precisará tomar uma decisão.
Por isso, não acredito em uma disputa entre profissional versus tecnologia.
Acredito em outra divisão:
profissionais que aprenderão a usar tecnologia sem abrir mão do conhecimento e profissionais que continuarão apenas executando aquilo que o sistema mandar.
E talvez essa tenha sido minha maior reflexão no Conexão DP.
Participar de eventos assim não é apenas buscar atualização.
É sair da nossa própria bolha.
É ouvir outros professores.
Conhecer outras práticas.
Rever certezas.
Fazer conexões.
E perceber para onde a profissão está caminhando.
Eu fui para Fortaleza querendo ouvir o DP.
Voltei ainda mais convencida de uma coisa:
quanto mais a tecnologia avança, mais valioso se torna o profissional que sabe pensar.
E para quem me pergunta qual é o DP do futuro, minha resposta está cada vez mais simples:
é aquele que conhece a regra, entende o processo, usa a tecnologia, sabe se comunicar e não terceiriza a própria capacidade de pensar.
Esse é o profissional que eu escolheria ser.
E você?


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