Motorista Nutella ou raiz? O que um anúncio de emprego pode ensinar sobre carreira e responsabilidade


Olá!

Um anúncio de emprego circulou pelas redes sociais e chamou minha atenção.

A vaga era para motorista de carreta categoria E, com experiência em São Paulo e Rio de Janeiro.

Até aí, nada muito diferente do que encontramos diariamente.

Mas a observação final dizia:

“Motorista Nutella estou agradecendo. Preferência motorista raiz. Tchau, obrigado.”

A primeira reação pode ser rir.

A minha também foi.

Mas depois da risada veio a reflexão.

Porque esse pequeno anúncio permite discutir pelo menos três assuntos muito importantes para quem trabalha com pessoas: competência profissional, transformação do mercado de trabalho e responsabilidade na comunicação durante um processo seletivo.

E talvez ele diga muito mais sobre o mercado de trabalho atual do que seu autor imaginava.

Afinal, o que seria um profissional “raiz”?

Vamos tirar por alguns minutos o tom de brincadeira da expressão.

Quando alguém diz que procura um profissional “raiz”, provavelmente está tentando descrever alguém experiente, que conhece profundamente a atividade, sabe lidar com dificuldades e consegue resolver situações sem depender permanentemente de orientação.

No caso de um motorista, podemos imaginar alguém que conhece estrada, enfrenta imprevistos, toma decisões e possui experiência prática.

Mas podemos transportar exatamente essa discussão para qualquer profissão.

No Departamento Pessoal.

Na Contabilidade.

No RH.

Na tecnologia.

Na gestão.

Na educação.

E surge uma pergunta interessante:

quando algo sai do roteiro, você consegue resolver?

Porque executar uma tarefa quando tudo funciona é uma competência.

Resolver um problema quando alguma coisa deixa de funcionar é outra.

E o mercado está valorizando cada vez mais a segunda.

Ser “raiz” não significa rejeitar tecnologia

Aqui está um ponto que considero fundamental.

Não podemos transformar essa discussão em uma disputa entre o profissional antigo e o profissional novo.

Nem entre gerações.

Muito menos entre quem utiliza tecnologia e quem prefere fazer tudo manualmente.

Aliás, para mim, o verdadeiro profissional “raiz” de 2026 não é aquele que rejeita tecnologia.

É justamente aquele que possui conhecimento suficiente para usar a tecnologia sem entregar a ela sua capacidade de pensar.

Podemos usar inteligência artificial.

Podemos automatizar processos.

Podemos trabalhar com sistemas cada vez mais sofisticados.

Podemos utilizar todas as ferramentas disponíveis.

E devemos.

Mas existe uma pergunta que considero indispensável:

se a ferramenta falhar, o conhecimento continua com você?

Se o sistema apresentar um resultado incorreto, você consegue identificar?

Se a inteligência artificial produzir uma resposta aparentemente perfeita, mas tecnicamente equivocada, você possui conhecimento para questioná-la?

É por isso que tenho repetido:

IA sem conhecimento não gera valor.

Mas acrescento algo a essa reflexão:

conhecimento sem capacidade de resolver problemas também começa a perder valor.

O anúncio também revela outro problema

Até aqui estamos olhando para quem procura emprego.

Mas precisamos virar a mesa.

Vamos olhar para quem está contratando.

Empresas também estão sendo avaliadas.

E talvez algumas ainda não tenham percebido isso.

Um anúncio de emprego não é apenas uma vaga.

É comunicação institucional.

Ele comunica cultura.

Comunica valores.

Comunica como aquela organização enxerga profissionais.

E comunica, inclusive, como aquela empresa provavelmente trata pessoas.

É aqui que o aparentemente divertido “motorista Nutella, estou agradecendo” deixa de ser apenas uma brincadeira.

Recrutamento também exige responsabilidade

Empresas podem estabelecer requisitos relacionados à função.

Experiência, habilitação, conhecimento técnico, disponibilidade para determinadas atividades e outras exigências efetivamente relacionadas ao trabalho podem fazer parte de um processo seletivo.

Mas existe uma diferença entre estabelecer critérios profissionais objetivos e utilizar rótulos ou expressões que possam constranger, diminuir ou excluir determinados grupos de candidatos.

Por isso, quem trabalha com recrutamento precisa tomar cuidado com a linguagem.

Dependendo do conteúdo, do contexto, da forma de divulgação e das consequências produzidas, um anúncio inadequado pode gerar questionamentos sobre práticas discriminatórias e até discussões envolvendo eventual responsabilidade civil e dano moral.

Isso não significa que qualquer frase infeliz automaticamente gere indenização.

Direito não funciona assim.

É necessário analisar o caso concreto.

Mas significa algo muito importante:

uma brincadeira publicada por uma empresa pode deixar de ser apenas uma brincadeira.

Principalmente quando estamos falando de acesso ao trabalho.

O processo seletivo também constrói a marca empregadora

Existe ainda uma questão estratégica.

Durante muito tempo pensamos que somente o candidato precisava causar uma boa impressão.

Hoje isso mudou.

O candidato observa a empresa.

Pesquisa.

Compartilha experiências.

Faz prints.

Publica.

Comenta.

E um anúncio que deveria atrair bons profissionais pode acabar afastando justamente aqueles que a empresa gostaria de contratar.

Por isso, eu substituiria “queremos motorista raiz” por critérios muito mais objetivos.

Por exemplo:

“Buscamos profissional com experiência comprovada em rotas de São Paulo e Rio de Janeiro, autonomia para resolução de imprevistos, responsabilidade, conhecimento da operação e capacidade de tomada de decisão.”

Percebe a diferença?

A empresa provavelmente continua procurando o mesmo perfil.

Mas agora comunica competências, e não rótulos.

O que Marta pensa sobre isso?

Eu não quero ser uma profissional “raiz” no sentido de continuar trabalhando como trabalhava vinte anos atrás.

E também não quero depender de uma ferramenta para pensar por mim.

Quero carregar aquilo que considero melhor desses dois mundos:

experiência para compreender o problema;
conhecimento para analisar;
tecnologia para potencializar;
e autonomia para decidir.

Mas existe outra parte dessa história.

Se queremos profissionais cada vez mais preparados, também precisamos de empresas cada vez mais preparadas para selecionar, comunicar e respeitar.

Não podemos exigir maturidade profissional do candidato e esquecer da maturidade organizacional de quem está contratando.

E talvez esse anúncio nos deixe duas perguntas.

Para quem procura oportunidades:

se amanhã aparecer uma vaga para um profissional “raiz” na sua área, você possui conhecimento e autonomia para ocupá-la?

E para quem oferece oportunidades:

a maneira como sua empresa anuncia uma vaga representa a organização pela qual você gostaria de ser conhecido?

Porque ferramentas mudam.

Profissões mudam.

O mercado muda.

Mas competência, respeito e responsabilidade continuam sendo excelentes critérios de seleção.

E isso, para mim, é ser verdadeiramente raiz.

Aqui meu podcast de hoje!


Este artigo apresenta uma reflexão sobre carreira, recrutamento e comunicação nas relações de trabalho. A caracterização de discriminação, responsabilidade civil ou dano moral depende da análise das circunstâncias concretas de cada caso.

Com carinho,

Marta Pierina Verona.


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