A IA pode aprender a sua tarefa. Mas ela não viveu a sua carreira
Olá!
Nos últimos dias, duas notícias sobre Inteligência Artificial e mercado de trabalho chamaram minha atenção.
A primeira veio de um estudo da McKinsey Global Institute: cerca de 11 milhões de trabalhadores nos Estados Unidos poderão precisar mudar de ocupação até 2035.
O estudo estima ainda que poderão ser necessárias aproximadamente 770 mil transições entre grupos profissionais por ano, um ritmo 3,6 vezes maior que a média histórica.
Assusta?
Talvez.
Mas continue comigo.
Porque outra notícia, dessa vez da Gartner, trouxe uma previsão aparentemente contraditória: até 2029, 30% dos empregados dispensados por empresas devido à IA poderão precisar ser recontratados.
Sim.
Empresas podem demitir pessoas acreditando que a Inteligência Artificial substituirá determinadas funções e, algum tempo depois, descobrir que eliminaram junto com os cargos algo que a tecnologia não conseguiu repor tão facilmente: conhecimento.
E foi aí que fiquei pensando na Martinha.
Sabe a Martinha?
Aquela profissional do Departamento Pessoal que durante anos aprendeu a fazer tudo direitinho.
Admissão.
Férias.
Folha.
Rescisão.
Encargos.
eSocial.
FGTS Digital.
Conferências.
Prazos.
Ela conhece o sistema, conhece a legislação e, principalmente, conhece aquelas situações que não estão escritas em manual nenhum.
A Martinha olha uma folha e às vezes diz: “Tem alguma coisa errada aqui.”
Ainda nem sabe exatamente o quê.
Mas sabe que tem.
Por quê?
Porque já viu centenas delas.
Já resolveu problemas.
Já conversou com clientes.
Já interpretou legislação.
Já errou.
Já corrigiu.
Já viveu situações que nenhum prompt consegue resumir em cinco linhas.
Isso tem nome: repertório.
A IA tem informação. Você tem história.
Talvez esse seja um dos pontos que estamos esquecendo quando discutimos Inteligência Artificial e empregos.
A IA pode pesquisar uma legislação em segundos.
Pode analisar uma planilha.
Pode comparar informações.
Pode resumir documentos.
Pode encontrar padrões.
Pode escrever textos, criar fórmulas e auxiliar em inúmeras atividades que antes consumiam horas do nosso dia.
E ainda vai fazer muito mais.
Negar isso não protege carreira nenhuma.
Mas existe uma diferença enorme entre ter acesso à informação e saber o que fazer com ela.
A experiência profissional nos ensina a desconfiar.
A perguntar.
A interpretar contexto.
A perceber que determinado resultado pode até estar matematicamente correto, mas não fazer sentido naquela situação.
É por isso que eu gosto tanto de uma pergunta:
O sistema apurou. Mas alguém analisou?
Agora podemos atualizá-la: A IA respondeu. Mas alguém analisou?
Porque resposta não é sinônimo de decisão.
E velocidade não é sinônimo de conhecimento.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada
Durante muito tempo a discussão foi: “A IA vai tirar meu emprego?”
Eu começaria a trocar essa pergunta por outras: Que parte do meu trabalho a IA já consegue fazer?
Que parte eu consigo fazer melhor usando IA?
E que parte depende do meu conhecimento, da minha experiência e da minha capacidade de julgamento?
Essa mudança parece pequena.
Não é.
Porque talvez o profissional mais exposto à transformação não seja simplesmente aquele cuja profissão pode ser automatizada.
Pode ser aquele que continua entregando somente aquilo que já pode ser automatizado.
E o Departamento Pessoal?
Aqui a conversa fica ainda mais interessante.
Durante muitos anos, boa parte do valor do profissional de DP esteve no fazer.
Calcular.
Digitar.
Processar.
Transmitir.
Conferir.
A tecnologia foi assumindo várias dessas etapas.
Agora a Inteligência Artificial acelera ainda mais esse movimento.
Isso significa que o profissional de DP perdeu importância?
Eu acredito exatamente no contrário.
Mas o lugar onde está o valor mudou.
Estamos caminhando do: fazer → conferir → interpretar → antecipar → decidir.
O profissional que apenas executa uma rotina tende a competir cada vez mais com a automação.
O profissional que entende por que aquela rotina existe, qual legislação está por trás dela, quais dados precisam ser analisados e quais riscos uma decisão pode produzir passa a usar a tecnologia como extensão da própria capacidade.
Essa diferença será enorme.
E as empresas também precisam aprender
A previsão da Gartner traz outro alerta importante.
Quando uma empresa olha para a IA apenas como oportunidade de redução de custos, pode cometer um erro caro: confundir tarefa com conhecimento.
Uma tarefa pode ser automatizada.
Mas quando uma pessoa sai da organização, não vai embora apenas aquilo que aparecia na descrição do cargo.
Vai junto conhecimento institucional.
Histórico.
Relacionamentos.
Contexto.
Experiência.
Capacidade de resolver exceções.
Aquele profissional que sabe por que determinada decisão foi tomada três anos atrás talvez tenha um conhecimento que simplesmente não está documentado em lugar algum.
Por isso, implementar Inteligência Artificial deveria vir acompanhado de outra pergunta: o que podemos automatizar sem destruir o conhecimento que ainda precisamos preservar?
Esse talvez seja um dos grandes desafios das empresas nos próximos anos.
Martinha não precisa competir com a IA
Ela precisa aprender a trabalhar com ela.
Usar IA para pesquisar mais rápido.
Comparar informações.
Organizar dados.
Identificar inconsistências.
Criar cenários.
Ganhar produtividade.
E usar o tempo que economizou para aquilo que exige mais dela: pensar.
Talvez esse seja um dos paradoxos da Inteligência Artificial.
Quanto mais a tecnologia aprender a fazer, mais importante será sabermos pensar sobre aquilo que ela fez.
E isso exige conhecimento.
Não menos.
Mais.
A IA pode aprender a sua tarefa
Mas ela não viveu a sua carreira.
Não participou daquela implantação que deu errado.
Não precisou explicar um cálculo para um cliente nervoso.
Não percebeu uma inconsistência porque lembrou de um caso parecido de cinco anos atrás.
Não construiu relações.
Não viveu suas escolhas.
Não acumulou suas experiências.
Não desenvolveu o seu olhar.
Esse repertório é seu.
Mas existe uma condição: você precisa continuar desenvolvendo-o.
Porque experiência sem atualização também envelhece.
O profissional do futuro não será necessariamente aquele que sabe mais tecnologia.
Também não será aquele que sabe mais legislação.
Provavelmente será aquele que consegue juntar conhecimento + experiência + tecnologia + capacidade de análise.
Então eu deixo uma pergunta
Não para 2029.
Nem para 2035.
Para agora.
Olhe para aquilo que você faz todos os dias e se pergunte: Se a Inteligência Artificial aprender a fazer parte do meu trabalho, qual será a parte que continuará precisando de mim?
Talvez a resposta mostre exatamente onde você precisa investir na sua carreira a partir de agora.
Porque a IA pode aprender a sua tarefa.
Mas a sua carreira ainda é você quem constrói.
🎙️ Esse também é o tema do episódio de hoje do Carreira em Tópicos, no Portal Contábeis.
Com carinho,
Marta Pierina Verona.

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