Martinha cresceu. E a carreira dela também

Sabe a Martinha?

Ela trabalha no Departamento Pessoal.

É organizada, responsável, conhece os prazos, confere a folha, acompanha admissões, férias, rescisões, eSocial...

Martinha é boa no que faz.

E durante muito tempo acreditou que ser uma excelente profissional significava exatamente isso: fazer tudo certo.

Até que um dia alguém colocou um relatório na frente dela e perguntou:

“Martinha, o que esses números estão nos dizendo?”

E ela travou.

Não porque não conhecesse aqueles números.

Muito pelo contrário.

Ela sabia gerar o relatório. Sabia conferir os dados. Sabia explicar de onde cada informação tinha vindo.

Mas ninguém havia ensinado Martinha a olhar para um número e perguntar: “E o que eu faço com isso?”

Talvez essa seja uma das grandes viradas da nossa carreira.

Eu conheço muitas Martinhas

E talvez eu mesma já tenha sido uma delas.

Durante muitos anos, especialmente no Departamento Pessoal, fomos reconhecidos pela capacidade de fazer.

Fechar a folha corretamente.

Cumprir o prazo.

Calcular férias.

Fazer uma rescisão.

Transmitir os eventos.

Resolver aquela diferença que ninguém conseguia encontrar.

E não há nada de menor nisso.

Aliás, existe uma coisa que faço questão de dizer: não existe estratégico consistente sem um operacional bem-feito.

O problema começa quando acreditamos que nossa carreira precisa terminar ali.

Foi justamente sobre isso que falei recentemente no ConvirTrab, quando conversamos sobre KPIs e People Analytics.

E uma frase daquela palestra ficou comigo:

não comece pelo dashboard. Comece pelo problema.

O indicador não faz a pergunta por você

Imagine que um relatório mostre 15 desligamentos.

O sistema calcula o turnover.

O dashboard cria um gráfico lindo.

A inteligência artificial pode até ajudar a identificar padrões.

Mas alguém ainda precisa perguntar:

Por que essas pessoas estão saindo?

De quais áreas?

Com quanto tempo de empresa?

Estamos perdendo profissionais no período de experiência?

Existe concentração em determinada liderança?

O custo das saídas está aumentando?

Há alguma coisa acontecendo que ainda não percebemos?

Percebe a diferença?

O dado mostra. A análise provoca.

E foi aí que a Martinha começou a crescer.

Ela continuou fazendo. Só começou a enxergar diferente.

Martinha não deixou de conferir a folha.

Mas começou a perguntar por que as horas extras estavam aumentando todos os meses.

Não deixou de calcular rescisões.

Mas começou a observar por que tantas pessoas estavam deixando a empresa antes de completar seis meses.

Não deixou de acompanhar afastamentos.

Começou a perceber recorrências.

Não deixou de cumprir obrigações.

Passou a conectar aquilo que fazia todos os dias com decisões que poderiam melhorar o negócio e a vida das pessoas.

O trabalho continuava praticamente o mesmo.

Quem havia mudado era o olhar da Martinha.

E talvez essa seja uma das partes mais bonitas do crescimento profissional.

Nem sempre crescer significa trocar de empresa.

Nem sempre significa receber uma promoção.

Nem sempre significa mudar o nome do cargo no LinkedIn.

Às vezes, a carreira cresce antes do cargo.

Ela cresce quando começamos a enxergar aquilo que antes apenas executávamos.

E agora temos a Inteligência Artificial

Talvez alguém pense: “Mas Marta, se a tecnologia calcula, analisa dados e a IA consegue encontrar padrões, o que vai sobrar para nós?”

Eu inverteria a pergunta.

O que a tecnologia está nos permitindo deixar de fazer para que possamos finalmente fazer aquilo que só nós podemos fazer melhor?

Contextualizar.

Questionar.

Relacionar informações.

Entender pessoas.

Perceber o que não está explícito no relatório.

E decidir.

A tecnologia pode nos entregar respostas cada vez mais rápidas.

Por isso, talvez uma das competências mais importantes daqui para frente seja justamente saber fazer perguntas melhores.

O que Marta pensa sobre isso?

Eu também já fui uma Martinha em muitos momentos da minha carreira.

Aprendi fazendo.

Errei fazendo.

Acertei fazendo.

Depois comecei a perguntar.

Por quê?

Para quê?

O que esse número significa?

O que essa legislação muda de verdade na vida de quem está lá na empresa?

O que esse sistema está me mostrando?

O que ninguém perguntou ainda?

E continuo aprendendo.

Talvez por isso eu não goste dessa ideia de que precisamos abandonar o operacional para sermos estratégicos.

Eu não abandonei o que aprendi. Eu subi em cima desse conhecimento para conseguir enxergar mais longe.

É diferente.

Nossa experiência não precisa ser descartada quando a carreira evolui.

Ela precisa ganhar novas perguntas.

Porque conhecimento não foi feito para ficar parado em um relatório.

Nem em uma legislação.

Nem em um sistema.

Nem em um dashboard.

Nem mesmo em uma inteligência artificial.

Conhecimento só transforma quando sai do papel e encontra pessoas.

E a sua carreira?

Quero terminar deixando uma pergunta.

No seu trabalho hoje, você está apenas entregando respostas ou já está fazendo perguntas que podem mudar decisões?

Talvez o próximo passo da sua carreira não seja fazer mais cursos, gerar mais relatórios, conhecer mais sistemas ou trabalhar mais horas.

Talvez seja algo muito mais simples — e muito mais difícil:

aprender a enxergar melhor aquilo que você já faz.

Martinha não deixou de ser operacional.

Ela não deixou de ser quem era.

Martinha cresceu.

E quando o olhar dela mudou, a carreira começou a crescer junto.


🎙️ Esse também é o tema do episódio de hoje do Carreira em Tópicos, no Portal Contábeis.

E se eu pudesse deixar apenas uma frase deste artigo com você, seria esta:

Conhecimento só transforma quando sai do papel e encontra pessoas.

O que Marta pensa sobre isso?

Que talvez crescer na carreira não seja deixar para trás tudo aquilo que você aprendeu.

Talvez seja finalmente descobrir o que fazer com tudo aquilo que você já sabe. ❤️

Com carinho,

Marta Pierina Verona

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